
Em uma das casas mal feitas havia uma garota, chamada July. Ela era uma menina assustada, dormia apenas com as luzes acesas e era assombrada pelo passado, pelas suas maiores perdas e piores lembranças por quase todas as noites.
Numa madrugada qualquer July teve um de seus piores pesadelos, apagaram as luzes de seu quarto, ela se sentia suja e invadida por algo naquele escuro que não conseguia identificar. Ela se virou para o outro lado e tentou não fazer barulho ao respirar. O pesadelo daquela noite acabara ali, mas muitos outros vieram depois desse. E pior do que um pesadelo no silêncio da cinzenta madrugada é tê-lo em plena luz alaranjada da tarde.

Por várias vezes July andou por aquela rua tarde da noite, com os olhos transbordando e com o coração amedrontado que pedia por socorro para alguém que nunca esteve ali. Tudo o que ela precisava era de proteção, e por que não a protegeram nessas noites tão apagadas e nebulosas? Alguém tinha esse dever, e ela tinha esse direito, era só uma garota e não podia se defender de si mesma. Seus braços estavam cheios de dor, já não havia mais espaço para mais cicratizes e em sua garganta já não havia mais forças para suportar os nós.
Durante muito tempo July olhava seu rosto borrado no espelho despedaçado, sentia em seu corpo o frio da lâmina, a dor de um vício e chorava ao ver as marcas de uma vida perturbada e o sangue caindo pelo chão.
...
Quarto escuro, móveis velhos e empoeirados. Uma janela semi-aberta, emperrada e enferrujada. Perto de uma porta de madeira pequena e apodrecida há uma garota encolhida e sem noção alguma sobre o tempo. A garota estava lá a algumas horas, e é claro que ela não sabia disso, mal sabia como chegara até ali. Fome, frio e medo. Essas eram as únicas coisas que disputavam um espaço para se esconder naquela escuridão.

Minutos depois a garota ouviu um barulho vindo em direção a porta de madeira, alguém subia a escada que rangia a cada passo dado, pegadas barulhentas e pés que se arrastavam por cada degrau. A porta se abriu e quase despencou de tão velha. A silhueta de um homem aparecera ali e uma voz entrou naquele quarto pequeno sem nem se quer pedir licença para invadir o pouco espaço que havia naquele lugar:
- Olá? – indagou o homem que aparentava ser gigantesco perto daquela porta minúscula – trouxe isto para você.
Ele entregou a ela uma tigela de sopa e um pedaço de pão, pelo visto era a única coisa que ele tinha para oferecer.
A menina por sua vez pegou da mão do homem a tigela e o pão e tentou matar sua fome, aquilo não era o suficiente, mas era melhor do que nada.
- Como você se chama? – Perguntou o homem para a garota.
- July. Como... – A menina não sabia se falava ou se devorava os seus restos – O que estou fazendo aqui?
- Você não se lembra? – Indagou o homem observando atentamente July se afogar na sopa fria e sem gosto que ele havia preparado – Não consegue se lembrar de nada?
– Não, eu não consigo me lembrar de nada.
- Eu encontrei você na rua, desacordada e a trouxe para cá.
O homem se chamava James, e era bem velho daqueles bem ranzinzas. Amargurados pela vida infeliz, pela mulher que perdeu, pelos filhos que não teve e pela solidão que o acompanhou por tantos anos. Mas ele apesar de tudo tinha um coração que mesmo sendo velho, e apesar de fazer parte de um homem tão cheio de defeitos, era bom.
July foi por alguns instantes a filha que James jamais tivera e ele foi a proteção que a garota esperava naquela rua adormecida todas as noites.
- July, tem algo que eu quero lhe dizer. – Disse James com o olhar mais triste e o sorrido mais apagado. – Quero que você escute com atenção e não se desespere. Você ficará bem.
- O que? – Ela não fazia idéia do que James iria dizer, mas sabia que não era nenhuma boa notícia.
- Quando eu a encontrei na rua, havia uma carta com você. Era de sua tia, dizendo que estava de partida e que não poderia te levar, pediu desculpas por ter dado remédios para você dormir, e ter te deixado ali.
July morava com a tia, seu pai havia desaparecido antes de seu nascimento e sua mãe morreu no parto. Ela e a tia se davam bem, mas ela sempre sofreu com a ausência do amor dos seus pais e sempre sofreu por ser para sua tia sempre uma mentirosa, tudo que ela contava eram estórias de uma criança que não sabia diferenciar a realidade de um sonho.
O coração da menina foi esmagado por mãos de ferro e ela não conseguiu conter as lágrimas.
James a abraçou e disse que tudo iria ficar bem.
...
Cinco anos depois com o trabalho de July e a aposentadoria de James, eles conseguiram se mudar para uma casa melhor, a garota estava com vinte anos de idade, e o Sr. James mais velho ainda, porém, feliz por ter uma filha que fazia de tudo pelo seu mais novo pai.
Meses mais tarde, James faleceu. Mais uma perda na vida de July, mas essa foi a única perda que não a machucou tanto, pois sabia que em algum momento da vida dos dois eles foram felizes pois tinham um ao outro. E ela sabia que havia chegado a hora de James descansar, para sempre.
Eu amei essa história mana, o jeito que você escreve, até parece trecho de algum livro *--* amei :) ||Bia
ResponderExcluir